quinta-feira, maio 11, 2006

é só saber juntar as idéias desconexas... ou não saber.

o café desceu amargo e perfurante... fazendo o HCl do estômago se espalhar por todo corpo, até chegar a alma.
alma ácida.
ph=2.

parou pra se questionar sobre o nome.
como o nome de algo que nasce pode ser uma expressão que equivale a morte? nasceu morto. um bebê que nasce morto. e as mãozinhas não mexem, e o coraçãozinho não bate. roubaram a vida antes mesmo que ele existisse. sabe?

pense bem, nem sempre morte pode ser morte, talvez a morte seja luz.
superação, reestruturação, redescoberta, recomeço, renascimento. vida.

e quem um dia irá dizer que existe razão?
e quem irá dizer que não existe razão?

...


esse meu ódio é o veneno que eu tomo querendo que o outro morra.



"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
'Navegar é preciso; viver não é preciso'."
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, maio 05, 2006

sobre os intervalos entre os tacos do chão.

sentou-se à mesa munido de lápis e borracha. pegou a folha branca, já que as linhas podiam atrapalhar o fluxo quase nulo de idéias. dobrou em dois. em quatro. olhou em volta. vazio. mudou a música. não se reconheceu mais no papel. bateu o lápis na mesa e pensou assim talvez ter alguma luz, algum embalo. cerrou os olhos, e tudo sempre estava um breu. não importava o sentido que tomassem as pálpebras. escuridão de temas.

micro temas que a vida...
por que vc não escreve...?
tudo lixo...

sentou-se em frente ao computador, abriu o programa e concentrou-se no cursor a piscar. sumia e aparecia. os dedos imóveis. pela casa não ecoava o pular das teclas, mas sim o silêncio do não ser. olhou para o teto, as reentranças pareciam vazias. não mais havia ali a poesia e a dor de antes. a dor de pensar. não havia mais o pensar. as paredes estavam pálidas, quietas, não mais participavam-lhe criações.

não tem mais o mergulhar...
não tem mais nada aqui...
talvez não tenha mais ninguém...
negação...
quase um esforço físico.

picotado, não tricotado. vê?

um corpo vazio de alma. um exterior igualmente desalmado. nenhum espelho. nem os de água salgada.
fugiu sem ao menos deixar um bilhete. não sabe quando volta.
volta?
volto?

lembro das formigas... e do banco. e da foto.

quinta-feira, maio 04, 2006

os marcianos. um paulista e a outra carioca.

parece engraçado.
depois de tanto tempo mendigando na internet aqui e ali voltar ao exato ponto onde tudo começou.
blog.
eu lembro que o primeiro era a minha vida, e eu escrevi tanto que meus dedos cansavam. e eu falava tanto que falava até o que não devia. (amoamar, agoraachoqueteodeio)
antes blog era coisa de criança.
e eu lembro daquelas coisas piscantes que ficavam do lado, e dos milhares de templates que eu fazia, de estrelas, de estátuas, de sangue, de bichos estranhos, do los hermanos, do amarante... eu tive muitos templates diferentes... eu fiz cada um deles com tanto carinho... e me lembrei agora de um da alanis que era tão branco que me lembrava a paz de voltar do refúgio sendo a outra, mas estando melhor. infinitamente melhor.
me lembrei daquele endereço que eu tanto amava, algo do tipo "meu_pouco_que_sobrou" e eu o amava tanto, que me dividi tanto nele que fui obrigada a deixá-lo pra trás senão nunca esqueceria as dores que ele carregava. eu me lembro dos "e agora, josé?", das figuras monstras, das cores claras pra disfarçar.... no fundo era tudo sempre uma grande mentira. e mentira seria dizer que eu não sinto falta do quanto eu podia ser poética, não óbvia, perfeitamente perdida e nem por isso desinteressante como agora...
crescer é uma coisa muito chata.
e enquanto todos se divertiam depois postando fotos de caras e sorrisos, eu fotografava os detalhes móbidos, sórdidos, egoístas, infelizes. e aquilo ficava lá. é assim até hoje. e quando aparecem sorrisos são regados a lágrimas. e se antes eu me divertia tirando fotos e vivia a vida em quadros, e estava sempre a espera da revelação do filme perfeito, agora a minha câmera quebrou e levou a minha mente, brinquedo atrofiado de viajar. avião sem combustível, parado ali, sozinho.
é, crescer não tem realmente a menor graça, principalmente quando se vai dos 5 aos 80 anos em meses, como eu. quando foi o pulo do gato? um dia acordei e os cabelos brancos me caíram sobre os olhos.
a verdade é que nunca o que é pros outros é pra mim.
eu não sei fazer nada de especial. eu não sei rimar, não sei pontuar, não sei corrigir, conferir, ninar, impressionar... não sei ajeitar. só sei bagunçar...
sinto falta do marciano... e nem tenho coragem de voltar a ler, porque meu cérebro, brinquedo de me divertir, atrofiou. saudades do meu paulista intelectual no msn de manhã, filosofando logo cedo, desesperando logo cedo. "acho vou morrer de câncer". a usp nunca é o limite.
eu era algo que eu não sou mais.
eu não cresci, eu morri.



meu pedaço inteligente:




"I should've stopped to think - I should've made the time
I could've had that drink - I could've talked a while
I would've done it right - I would've moved us on
But I didn't - now it's all too late
It's over... over
And you're gone..

I miss you I miss you I miss you
I miss you I miss you I miss you so much"

(the cure / cut here)