terça-feira, outubro 17, 2006

e me lembrou pais e filhos...

primeiro de tudo, eu não deveria estar aqui.
é, impressionante, eu não deveria mesmo.
logo no dia que penso em tanto o que escrever, tenho tanto pra ler que as duas obrigações e vontades se chocam na minha mente e eu fico imóvel, mastigando lentamente, tentando organizar tudo.
gosto mais dos animais do que das pessoas. não sei desde quando, e nunca soube explicar direito porque, mas é assim que é. geralmente, um "é como eu sinto" deveria bastar aos ouvidos enxeridos. ninguém poderia me perguntar isso, mas alguns teimam em achar que podem.
e assim ia... assim eu sentia, me punindo aqui ou lá por sentir assim, por dormir e acordar sempre olhando pro meu gato com mais carinho do que pro meu pai, ... e assim ia. eu nunca soube explicar, e talvez nunca tenha exigido de mim mesma essa explicação. se tantas pessoas fazem coisas idiotas sem se preocupar, por que eu deveria fazer? a velha desculpa... talvez tenha ficado assim com o tempo. talvez eu tenha me decepcionado tanto, que mesmo sabendo que as pessoas não são iguais, que cada um é dotado de uma peculiaridade única e pitoresca, alguma parte dentro de mim resolveu que melhor seria pra mim se olhasse de modo diferente pros humanos. com um certo desprezo talvez, um falso ar de superioridade. e fácil era: só fingir que eu era um gato. como agora. como semana passada, ano passado, ontem, e hoje de manhã. e todos os dias desde que passei a sentir assim. e então conviver com as pessoas passou a ser uma visita a espécies longínquas, distantes, desconhecidas, mas nem por isso interessantes. tudo o que eu queria era voltar pra minha caixa de areia e meu pote de ração no final do dia.
por não gostar das pessoas, menos apreço eu teria ainda pelas crianças. coisinhas bonitinhas, bolinhas de banha e cocô que mais tarde se tornariam -seja lá na forma que fosse- algo abominável e extremamente nocivo aos animais, à terra, ou a porra que fosse. bebê é legal. glaucifermente falando, até serem aculturados. depois que se começasse o processo de contato deles com a cultura, endoculturação etc e tal, aí começaria a encheção de saco. por isso eu preferia os macacos, era aí que estava então a diferença. e que se fodesse a fala. quem liga? cada dia menos eu falo com as pessoas mesmo. e, susto à parte dos que me cercam, I don't give a shit. de verdade. eu tento me importar, mas ainda sinto que tenho mais a pensar e ler do que falar. falar, falar... pra que se no final do dia não terá sido nada útil? poupemos a saliva que pode ser muito útil desborrando esmaltes, colando cartas, adesivos velhos, sujando o chão e outras maravilhas.

é.

eis que um ser de 40 centímetros nasce e muda um pouco a rotina da família.
telefonemas, emoção, fraldas, chupetas e mamadeiras.
um bebê na família. e vindo logo de quem! susto à parte das pessoas que me cercam, logo da minha irmã! aquela! eu nem falo com ela direito. ela nem me liga no meu aniversário, mesmo que eu ligue no dela (obrigada pela minha mãe, que não sabe explicar direito porque, mas diz que tenho que amá-la como amo meu irmão. sempre essas regras da instituição família, que eu, aliás, sinto que não entendo).
e eis que surge o melequento. pequenininho, com cara de joelho, sem dente, sem expressão facial clara, sem nada. sem nenhuma noção do que eu penso ou as pessoas ao redor pensam, aliás, sem a menor noção de que elas pensam. e de que ele mesmo pensa. se é que ele pensa... bem, ele pode ser como o bebê de "olha quem está falando"... whatever...
e então, desde o surgimento dele, eu fico pensando... por que será que eu não me permito gostar mais das pessoas como antes? os bebês, a família, as pessoas próximas, ou qualquer uma... por que?
depois de quase dois meses na faculdade, estudando o que eu estudo, a ínfima parte do todo, -porque foi só isso o que estudei até agora- só chego a uma conclusão, que se acentua a cada dia, é coerente e creio que agrade a todos. eu tenho medo. medo sim. lógico, não medo do que podem fazer individualmente a mim, pessoalmente, numa relação comigo. uma das poucas boas coisas que eu aprendi até agora foi justamente que o tempo faz passar tudo, de um modo ou de outro. então, seja o que for o que alguém ainda me fará sofrer, eu vou superar. acho que o medo, mais complexo do que esse, é o medo que eu tenho do que todos podem fazer, ou não fazer, ou sequer terem a noção de que podem fazer, ou são, ou... coisas assim, subjetivas assim...
felizes são as pessoas que não sonham em estudar elas mesmas. entende? aquelas pessoas que podem estudar o que for, mas as verdades internas delas, as mais básicas, os pilares da existência delas nunca serão questionados. felizes são os das ciências exatas, ditas naturais. felizes são eles. números, biológico, leis físicas, que "independem da vontade do cientista". felizes são esses que estudam as coisas na faculdade e voltam felizes da vida pra casa, continuando a vida, um dia após o outro, as mesmas relações com as pessoas. felizes são esses, esses são realmente felizes.
fodidos somos nós. como estudar algo que, mesmo que minimamente, também é culpa sua? como estudar isso durante quatro horas do seu dia e voltar pra casa sentindo e pensando as mesmas coisas e não se questionar sobre nada? impossível. quem estuda a sociedade está possivelmente condenado ao caos mental -e eu, ao emocional também. alguma dúvida de que esse é o lugar onde eu definitivamente (não) deveria estar?
será que há alguma pesquisa que mostre o maior índice de suicídios ou surtos psicóticos entre as pessoas da área de humanas do que entre as de exatas ou biomédicas?


errar é humanas.
e eu sempre fui meio errada mesmo.


esse foi o jeito mais escroto de dizer que, (e temerosa estaria de dizê-lo como se me encontrasse um dia diante da minha turma do Pedro II), mesmo com todo os surtos psicóticos, crises existencias, medos e dores que irá me causar, estou fadada a amar o que farei.
na história sim. e ele lá nas ciências sociais. e digamos que ele tenha menos medo do que eu, e por isso vai além.



meu deus.
boa prova pra mim quinta-feira.


ahahaha, a já fatídica risada final.


silverchair, all neon ballroom.

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